FOLHA DO CENTRO - 23 ANOS DE EXISTÊNCIA Edição N° 254 - Novembro de 2017.
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  Memórias do Centro  
Eduardo Raymundo Rodrigues: um distinto apaixonado pelo Centro do Rio

A coluna Memórias do Centro desta edição irá resgatar a história de um dos mais ilustres e atuantes moradores do Bairro de Fátima, no Centro. Eduardo Raymundo Rodrigues nasceu em Salvador e veio para o Rio de Janeiro aos 17 anos. Sua primeira residência na cidade foi em uma vila de casas chamada Vila Ruy Barbosa, onde atualmente estão os prédios da Petrobras na Av. Henrique Valadares.
Eduardo se apaixonou pelo bairro e ali viveu por toda a vida. Durante muito tempo, compartilhou um período de precariedade do Centro da Cidade. “Na época, o Bairro de Fátima, assim como todo o Centro, não tinha asfalto, iluminação pública e nem água encanada. Tudo era muito difícil. A infraestrutura era péssima! Tudo era precário. Os moradores pegavam água em uma nascente chamada Castelinho, que hoje não existe mais ali na Rua Cardeal Leme. As pessoas faziam fila para carregar água”, conta Afonso Rodrigues, 70 anos, filho de Eduardo.
Em determinada época, Eduardo Rodrigues resolveu reunir os mais nobres moradores do Bairro de Fátima e decidiu criar a ‘Comissão Pró-Melhoramentos do Bairro de Fátima’. O grupo de moradores foi a primeira comissão de bairros criada na cidade, que rapidamente se fortaleceu e se solidificou. Sob a liderança de Eduardo Rodrigues, a comissão conquistou rapidamente as melhorias estruturais pleiteadas para o bairro. “Meu pai começou a chamar a atenção porque todos queriam saber quem é aquele senhor que anda pedindo água, pedindo asfalto, iluminação pública e cobrando melhorias para o bairro. Assim, a comissão de bairro deu tão certo que meu pai conseguiu tudo que queria e acelerou muito o desenvolvimento do Bairro de Fátima”, esclarece Afonso.
Com o sucesso da Comissão de moradores, outras comissões começaram a surgir pela cidade. Com a força conquistada, o bairro foi contemplado com várias ações de melhorias. Rapidamente o cenário do Bairro de Fátima foi se tornando outro, deixando de ser um abandono e passando a receber infraestrutura urbana.
O Bairro ganhou iluminação pública, água encanada, asfalto e começou a ficar organizado e valorizado. Assim, o crescimento demográfico foi altamente acelerado por conta da valorização e começou a despertar também o interesse de empreendedores da construção civil. “O bairro ficou tão valorizado, que as empreiteiras que chegaram, começaram a construir uma porção de quitinetes em Copacabana e aproveitavam e construíam aqui também. Por isso o Bairro de Fátima está cheio de quitinetes sem garagem. Por essa razão as ruas hoje estão tomadas pelos carros, pois a indústria automobilística ainda não tinha força e o mercado imobiliário avançava com muito êxito por aqui. O Bairro de Fátima cresceu, o comércio se instalou, pessoas importantes vieram morar aqui e grandes empresas começaram a se alojar. Hoje as pessoas nem sentem, mas naquela época sentiam muito esse progresso”, explica o filho de Eduardo Rodrigues.
Devoto de Nossa Senhora de Fátima, Eduardo não tinha uma vida de luxo, e morava com a mulher e os três filhos em um pequeno conjugado na Rua Monte Alegre. Como líder comunitário respeitado, Eduardo uniu forças com os moradores do bairro, e defendeu o terreno, a construção e a implantação da Escola Guatemala. Na época, empresários da construção civil queriam a qualquer custo negociar o terreno para a construção de um prédio residencial. “O Terreno da Escola dava fundos para a Rua Cardeal Leme e entrada pela Av. N.S. de Fátima, um prédio ali daria um aproveitamento excelente para os empresários. Meu pai não deixou. A ideia era criar ali a primeira escola modelo, com dois turnos, com aula regulares, além de música, artesanato e diversas atividades. O Colégio acabou precedendo os Cieps que se espalharam pela cidade”, explica Afonso.
Com a união dos moradores e a luta de Eduardo, a Escola foi erguida, implantada e até hoje é referência no Bairro de Fátima. A Praça Aguirre Cerda também foi construída e a linha de ônibus 010, que até hoje circula pelo Centro, foi implantada para atender aos moradores. Eduardo conseguiu também efetivar a extinta linha de ônibus Fátima-Leblon. O Presidente da Associação de Moradores da Cruz Vermelha, Carlos Augusto da Cidade espelha o seu trabalho na trajetória de Eduardo Rodrigues. “O Sr. Eduardo permanecerá como uma força de inspiração para todos nós que lutamos pelo Centro da Cidade e pelos seus moradores. Ele ofereceu-se à vida pública no sentido mais nobre da palavra. Cada história que ouço sobre o trabalho que ele realizou é um orgulho para todos nós que amamos o bairro”, considera Carlos Augusto.
Disposto a defender O Centro de forma mais incisiva, Eduardo se candidatou a vereador da cidade, mas não se elegeu. “Ele era muito fiel ao bairro, ele não saia para fazer campanha política no Méier, por exemplo. Ele não era de ficar em botequim fazendo amizades para ganhar votos. Ele sempre teve boa votação, mas nunca se elegeu. Chegou a ser primeiro suplente de vereador e de deputado. Ele não soube ser político. Meu pai fazia de tudo, mas qualquer coisa que fizessem de errado ele brigava e era firme. Meu pai não tinha a flexibilidade necessária. Ele era autêntico e realizava com seu poder de articulação, mas nunca se submetia. Isso era contra o ser político, meu pai era muito verdadeiro”, revela Afonso. Eduardo ainda produzia e escrevia sua própria revista “Desafio Brasileiro”, distribuída gratuitamente.
Trilhando o caminho do Progresso, além da infraestrutura do bairro. Eduardo Rodrigues organizava festas juninas, natalinas e procissões religiosas, com o apoio da Prefeitura e do comércio local. A decoração de natal da Praça Aguirre Cerda era uma das mais modernas da cidade, com cascatas de água, iluminação e personagens em movimento. Eduardo cuidava dos brinquedos das praças, e sempre tinha uma solução para qualquer pessoa que o procurasse relatando um problema.
Aos 60 anos, Eduardo foi convidado para ser assessor do Secretário Municipal de Saúde, com um trabalho coerente e atuante, conseguindo ainda acelerar a obra e a inauguração do posto de saúde na Rua Monte Alegre. Permaneceu no cargo até ser exonerado por conta da troca de governo. “Meu pai chegou aos 65 anos sem nenhuma aposentadoria, sem INSS, sem nada. Virou corretor de imóveis e começou a sobreviver com negócios imobiliários. Aos 67 anos descobriu um câncer no pulmão e teve apenas três meses de vida após o diagnóstico. Ele, na época não conseguiu ser internado no INCA e foi para Campo Grande, onde faleceu”, expõe o filho de Eduardo.
Afonso Rodrigues revelou à Memórias do Centro, que chegou a ser procurado na época para apoiar um movimento político para trocar o nome de “Praça Aguirre Cerda” para “Praça Eduardo Raymundo Rodrigues”. Ele disse que não aceitou, pois não queria se envolver jamais em assuntos políticos e não quis comprar a briga. “Eu vi tudo que meu pai fez, eu via todo o trabalho dele. Ás vezes batia alguém lá em casa passando mal e ele corria para socorrer, levar ao hospital. Mesmo assim já cheguei até a ouvir comentários maldosos sobre ele, do tipo: ‘Ah, esse aí é só mais um político! ’”, desabafa Afonso. Hoje, o nome de Eduardo Raimundo Rodrigues não está em nenhuma rua, praça ou colégio, mas o seu trabalho ficará eternizado na memória do progresso do Centro da Cidade.

 

 
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